Chorei três horas, depois dormi dois dias. Parece incrível ainda estar
vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se
acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu
limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como
quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total.
“Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. (…) Uma cicatriz significa: Eu sobrevivi. “
Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui.
Mamãe há pouco bateu na porta, depois abriu e perguntou se eu estava
bem. Achei engraçado. "Eu nunca estou bem" tive vontade de responder. Ou
então: "O que é estar bem?" Preferi dizer que sim: "Sim, mamãe, estou
bem."
"Mas não era aquela moça, nem aquela a tarde, que tudo que foi de mim
perdeu-se no inatingível centro obscuro desses buracos. Começava a ficar
tonto com a bebida. Quis dizer a ele que a cidade não tinha mar, que eu
apenas pretendia pintar a segunda vidraça de baixo para cima, para que
os vizinhos não conseguissem espiar a minha vida. Quando pensei nisso
tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma
agitada roda colorida. Subia e baixava - eu, a Roda da Fortuna - nos
braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um
arcanjo dourado, um susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a
ele que me havia afastado assim para que a Roda rodasse distante de mim,
sem me envolver em seus volteios vertiginosos.
- Vim de longe - ele disse. - Eu vim de fora de ti."
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