segunda-feira, 30 de abril de 2012

Chorei três horas, depois dormi dois dias. Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total.

“Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. (…) Uma cicatriz significa: Eu sobrevivi. “ 

Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui.

Mamãe há pouco bateu na porta, depois abriu e perguntou se eu estava bem. Achei engraçado. "Eu nunca estou bem" tive vontade de responder. Ou então: "O que é estar bem?" Preferi dizer que sim: "Sim, mamãe, estou bem." 

"Mas não era aquela moça, nem aquela a tarde, que tudo que foi de mim perdeu-se no inatingível centro obscuro desses buracos. Começava a ficar tonto com a bebida. Quis dizer a ele que a cidade não tinha mar, que eu apenas pretendia pintar a segunda vidraça de baixo para cima, para que os vizinhos não conseguissem espiar a minha vida. Quando pensei nisso tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma agitada roda colorida. Subia e baixava - eu, a Roda da Fortuna - nos braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um arcanjo dourado, um susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a ele que me havia afastado assim para que a Roda rodasse distante de mim, sem me envolver em seus volteios vertiginosos.
- Vim de longe - ele disse. - Eu vim de fora de ti."

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