segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Dois alunos da aula de culinária de certo restaurante, Isabelle e Tom, se encontram por acaso em um dia de funcionamento normal do estabelecimento, sentam juntos por falta de mesas livres, então em meio à conversa:

- Estive pensando – comentou Isabelle, contemplativa, enquanto comia a sobremesa – se não seria uma bobagem criar novas lembranças quando você já sabe que vai perdê-las.
- E mesmo assim aqui está você, fazendo um curso de culinária – observou Tom.
- Bem, ao que parece, não hoje – assinalou Isabelle com ironia.
Tom sorriu.
Os dois continuaram comendo, calados e descontraídos, deliciando-se com a torta de limão cremosa à sua frente.
Depois de algum tempo, Isabelle voltou a falar.
- Estou começando a achar que talvez as lembranças sejam como esta sobremesa. Eu a como e ela se torna parte de mim, independentemente do fato de eu me lembrar dela mais tarde ou não.
- Conheci uma pessoa que dizia alguma parecida com isso – disse Tom.
- É por isso que você parece sempre tão triste? – perguntou Isabelle, e só então notou a expressão no rosto dele. Desculpe. Minha educação está indo embora junto com as minhas lembranças.
Tom balançou a cabeça devagar.
- Não há nenhum problema com a sua educação, e a sua mente é bastante afiada. – Ele soprou a superfície do café e tomou um gole. – Minha mulher. Ela morreu há pouco mais de um ano. Ela também era chef, e sempre dizia isso sobre a comida. Eu tento acreditar, mas era mais fácil quando ela estava viva e preparava a comida.
- Ah... – Isabelle encarou Tom, pensativa. – Então não somos tão diferentes.
- Como assim?
- Nós dois temos um passado ao qual não conseguimos nos agarrar.
- Acho que tem razão.
Tom ficou olhando para ela como quem ainda espera algo mais.
- Eu conheci um escultor – disse Isabelle meneando a cabeça. – Ele dizia que, se você prestasse atenção, podia ver em que parte do corpo cada pessoa carregava a sua alma. Parece loucura, mas, quando você via as esculturas dele, fazia sentido. Acho que o mesmo vale para as pessoas que amamos – explicou ela. – Nosso corpo carrega lembranças dessas pessoas, nos músculos, na pele, nos ossos. Meus filhos estão bem aqui – ela apontou para a curva interna do cotovelo -, onde eu os segurava quando eram bebês. Mesmo que chegue um momento em que eu não saiba mais quem eles são, acho que ainda vou senti-los aqui.
Depois de alguns instantes, ela perguntou a Tom.
- Onde você carrega sua mulher?
Tom olhou para Isabelle com os olhos marejados. Levou a mão direita à lateral do próprio rosto, depois afastou-a e ajustou um pouco a posição.
- Esta é a linha do maxilar dela – disse baixinho, correndo com o indicador esquerdo a meia-lua na base da mão, depois subindo até a curva superior onde a mão e os dedos se encontravam. – E aqui fica a maçã do rosto.

[Escola dos Sabores – Erica Bauermeister]

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